Uma jovem de 19 anos volta pra casa depois de anos longe e encontra um lugar que não tem nada de acolhedor. Tem o pai, tem o tio, tem o calor sufocando as paredes e tem um silêncio tão errado que parece observar cada passo dela. O que era pra ser só recomeço vira um jogo emocional pesado, sujo e cada vez mais sem freio, onde provocação, culpa, desejo e poder se enrolam de um jeito que ninguém ali consegue controlar.
Além da Cortina não vai pelo caminho confortável e nem tenta aliviar a mão. A história entra de cara numa casa rachada por ausência, frustração e impulsos que ninguém tem coragem de nomear direito. A cada cena, a tensão cresce daquele jeito que incomoda, prende e faz sentir que alguma coisa muito errada já tava ali antes mesmo da primeira página terminar. E é exatamente isso que fisga: não é só o choque, é o clima de veneno correndo por baixo de tudo, como se o ar da casa já viesse contaminado de fábrica.
Aqui, o peso não fica só no tabu familiar nem no escândalo fácil. Tá no jeito como os personagens se encaram, se testam, se ferem e se puxam pro fundo sem conseguir parar. A autora escolhe uma escrita seca, íntima e sufocante, com frases curtas e tensão grudada na pele. Não tem enfeite pra deixar bonito. Não tem maquiagem moral pra suavizar o que tá acontecendo. O que existe é um mergulho direto numa dinâmica de obsessão, carência, culpa e relações de poder que vão se embolando até virar uma massa escura, desconfortável e impossível de largar.
E o que deixa tudo ainda mais forte é que a história não vive só do impacto imediato. Por trás da provocação e do desconforto, existe uma sensação constante de herança emocional podre, como se cada escolha abrisse mais uma rachadura num chão que já tava cedendo fazia tempo. A tal cortina do título não esconde só um espaço da casa. Ela vira símbolo de tudo aquilo que foi empurrado pro canto, abafado, negado e deixado fermentando até virar marca funda demais pra sumir fácil.
É leitura pra quem curte drama psicológico pesado, ambiente claustrofóbico e personagens que parecem andar o tempo inteiro na beira do abismo. Não é uma história feita pra confortar, distrair ou deixar a cabeça leve. É daquelas que agarram pela garganta, colocam o leitor dentro do incômodo e fazem cada página parecer um passo a mais dentro de uma casa onde ninguém tá limpo, ninguém tá em paz e ninguém consegue sair igual entrou.
Dá o play e mergulha nessa história proibida, sufocante e doentia que esconde muito mais do que qualquer cortina deixa ver.
